O chamado profético para a Igreja Ortodoxa Russa em nosso tempo... | Sal da Terra Luz do Mundo

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2017-09-05


O chamado profético para a Igreja Ortodoxa Russa em nosso tempo (1)


Padre Enrique Bikkesbakker


O chamado profético para a Igreja Ortodoxa Russa em nosso tempo (1)

   Falar da história da espiritualidade russa numa reunião é impossível: há muito que dizer. Mas vou fazer um breve resumo porque uma coisa é falar da história, outra coisa é falar da espiritualidade. O Senhor disse a Vassula: “Eu Me proponho mostrar Meu esplendor e Minha Glória a cada nação que vive debaixo destes céus através de tua irmã Rússia. Eu a revestirei de Minha Beleza e Minha Integridade e a apresentarei com orgulho diante de teus irmãos a fim de que possam ver por ela e nela Minha Beleza e Minha Integridade.  (24.12.1989)”{Lembrem-se disto: Minha beleza e Minha integridade.}[2]

Para compreender melhor estas palavras do Senhor, é necessário imergirmos brevemente na história da espiritualidade da Igreja russa. Segundo narra a Tradição, o Apóstolo André foi o encarregado de levar a luz da Revelação cristã à Europa Oriental. Depois de proclamar o Evangelho no litoral da Grécia, às margens do Mar Negro, subiu o rio Dnieper até umas formosas colinas em Kiev onde ergueu uma cruz e disse: “Neste lugar resplandecerá a Bênção divina. Serão erguidas igrejas a Cristo e a luz verdadeira se propagará daqui a todos os países.” {Notaram a semelhança entre o que Jesus disse a Vassula e o que estamos dizendo aqui? Estamos falando do apóstolo André, que é padroeiro da Grécia, da Rússia, da Irlanda. Três apostolados.}Dali o Apóstolo seguiu seu caminho chegando perto do Mar Báltico, batizando numerosos adeptos em diferentes centros e povoados. Como reconhecimento da presença evangelizadora de Santo André, o Patriarca Partênio, de Constantinopla, no século XVII, doou a Moscou a mão até o cotovelo do Apóstolo, relíquia que permaneceu guardada na Catedral da Dormição da Virgem até a Revolução Bolchevique.

Oitocentos anos depois da semeadura apostólica de Santo André, o Patriarca de Constantinopla, Fócio, envia à Bulgária (em 862) dois irmãos gregos de Tessalônica: Cirilo (826-69) e Metódio (815-85) com a missão de evangelizar o povo búlgaro. O povo búlgaro é limítrofe com o povo russo. A obra foi muito frutífera e foi coroada com o batismo do Príncipe Bóris e de seu povo. Como preparação para a tarefa missionária, São Cirilo e São Metódio – mais especificamente São Cirilo – substituiu o antigo alfabeto eslavo que se falava na região por um novo, muito mais simples e admiravelmente adaptado aos sons eslavos, tendo por base as letras gregas. Isto permitiu realizar o enorme trabalho de traduzir a Bíblia a esse idioma, tarefa imprescindível para a posterior confecção dos livros litúrgicos. {O fato fundamental é que não se tratou de se impor um idioma, mas de se pôr serviçalmente sob um povo e de transmitir através do próprio idioma do povo – é o que se chama de não colonização, mas de cristianização de um povo. Cristo se pôs debaixo de nosso domínio, não acima. Se fez judeu, Se criou com o povo de Nazaré, respeitou as leis... – isto é todo um processo de kenosis[3] – e se pôs a serviço do povo para a evangelização.

Este é um trabalho maravilhoso que nos ensinam todos os homens santos – mas não foram santos por isso.} No final do mesmo século, o rei Simeão, o Grande, século IX (893-927), converte a Bulgária em uma potência europeia e herdeira da cultura civil e espiritual de Bizâncio. Então, reproduzem-se em grande escala a Santa Escritura e os livros litúrgicos traduzidos para o eslavo por Cirilo e Metódio –e isso será decisivo para a cristianização da Rússia. O exército do Príncipe Sviatoslav, príncipe de Kiev, em 967 conquista toda a parte oriental da Bulgária, mas respeita as igrejas e o clero. A ocupação russa enriquece as relações culturais e comerciais entre os dois países e permite o intercâmbio religioso, favorecido pelas traduções de São Cirilo e São Metódio à sua própria língua.

A mãe do Príncipe Sviatoslav, Olga, {e agora chamo a atenção para o seguinte: sempre por trás de qualquer trabalho evangélico, de qualquer trabalho espiritual, há uma mulher, sempre; está na Bíblia, nós é que não vemos, mas sempre, absolutamente sempre} e aqui está Santa Olga de Kiev que já havia abraçado o cristianismo alguns anos antes desta conquista. Foi a primeira princesa russa que abraçou o cristianismo. No entanto, seu filho, o Príncipe Sviatoslav, que foi quem conquistou a Bulgária, jamais aceitou se converter ao cristianismo, mas seu neto Vladimir foi educado por ela cristãmente desde pequeno. Vladimir seguiu o pai na vida pagã e guerreira nos primeiros anos de seu principado, mas depois, através dos anos, e pela perseverante influência de sua avó, Santa Olga, lentamente foi despertando nele um chamado à sua conversão pessoal e à de seu povo.

Apesar de ter sido iniciado por Santa Olga no cristianismo bizantino, a Tradição nos conta que Vladimir quis assegurar-se da escolha, para ele e para seu povo, enviando uma delegação de observadores para que estudassem as práticas islâmicas entre os árabes, as do judaísmo que professavam os czares – cujo reino estava situado na região baixa do Volga – e as da Igreja latina que atuava no Ocidente (até esse momento não havia divisão, havia uma só Igreja cristã).

Nenhuma dessas religiões produziu nos enviados uma impressão tão favorável como o esplendor da liturgia bizantina quando visitaram a catedral de Santa Sofia em Constantinopla. O narrador da crônica russa relata: “Não sabíamos se estávamos no Céu ou sobre a Terra, já que na Terra não se encontra semelhante beleza.”{Na Terra não se encontra semelhante beleza.}“Assim, portanto, não sabemos o que devemos dizer, mas sabemos, sim, de uma coisa: é que Deus mora ali com os homens...” Estas palavras ultrapassam infinitamente a impressão estética da liturgia que presenciaram. É a beleza da presença de Deus diante dos homens o que arrebata as almas e as transporta, {não a beleza de uma boa liturgia, de algo bem decorado.}Lembram-se das palavras do Senhor a Vassula? (... Eu a revestirei da Minha Beleza e Minha Integridade...) A beleza manifesta o divino. E quem é que manifesta esta beleza? O Espírito Santo.

Por isso, São Cirilo de Alexandria, Patriarca, Padre da Igreja do século quarto, precisa que o próprio do Espírito é ser o Espírito de beleza. Passando por alto o acontecimento histórico que também contribuiu para a conversão da Rússia, nos deparamos com o Príncipe Vladimir que se batiza junto com seu povo na primavera de 988 – por isso 1988 foi o milenário da Igreja Russa – consagrando-se a organizar um Estado verdadeiramente cristão. Os contemporâneos de Vladimir afirmam unanimemente que seu caráter e sua maneira de viver sofreram uma transformação radical em todos os níveis: consulta os bispos acerca dos assuntos do Estado, reorganiza a Justiça, elimina a pena de morte. {Foi apresentar-se ao Patriarca de Constantinopla para dizer-lhe que um povo cristão com um Patriarcado Bizantino – que foi o patriarcado mais importante do Oriente – não poderia conviver com a pena de morte, mas deveria extingui-la. Notam como houve a conversão?} A conversão a uma vida verdadeiramente cristã se estende a várias gerações começando por seus filhos – São Bóris e São Gleb – ambos mártires, assassinados pelo terceiro filho de Vladimir, Sviatopolk, porque, apesar de ambos terem um exército superior ao de seu irmão, se negaram a lutar contra ele pela sucessão do trono do principado de Kiev. As últimas palavras de São Bóris antes de seu assassinato foram: “Senhor, Tu sofreste por nossos pecados; torna-me digno de sofrer por Ti. Não morro nas mãos de meus inimigos, mas nas de meu irmão. Não lhe atribuas este assassinato como um pecado.” Sentido evangélico do sofrimento   Já vamos vendo, através de seus fundadores, como o povo russo vai adquirindo o sentido evangélico do sofrimento, que difere completamente do que se lhe dá habitualmente.

A partir do século X, se constroem templos majestosos, e a partir do século XI começam na Rus’[4] – como então se chamava a Rússia – a se desenvolverem os mosteiros. No ano 1051, um monge do Monte Atos, chamado Antônio, leva à Rus’ a tradição da comunidade monástica do Monte Atos fundando o famoso Mosteiro das Covas de Kiev, que se converteu no centro da vida cristã da Antiga Rússia. Santo Antônio foi sucedido por São Teodósio (1074), que aprofundou nesta semeadura um espírito profundamente cristão que se estende à vida pessoal e social do povo russo. Todos os aspectos de seu testemunho e a popularidade que desfrutou atestam a forte influência do cristianismo sobre o povo.

O papel dos mosteiros em Rus’ era enorme. Eram grandes centros de instrução e de trabalho social. Foram escritos manuscritos que conservaram até nossos dias relatos de todos os acontecimentos notáveis da história do povo russo, {não só religiosos (prefiro dizer, espirituais)}. Nos mosteiros floresciam a pintura de ícones e a arte da escrita de livros; realizavam-se traduções ao idioma russo de obras teológicas, históricas e literárias. A ampla atividade benéfica dos conventos contribuía para a impregnação da vida cristã em todas as manifestações culturais e sociais. Rus’, durante o período de Kiev (980-1240) alcançou um alto nível de civilização. Sua capital foi a segunda cidade da Europa, depois de Constantinopla.

As catedrais de Santa Sofia, erigidas em Kiev e em Novgorod, eram os edifícios mais belos fora de Bizâncio. Este é o período da fundação e é muito importante discernir as colunas sobre as quais se vai construindo a Igreja da Rússia: 1. O que definiu a escolha da Igreja Bizantina foi a liturgia. E o amor da Igreja russa pela liturgia permaneceria até hoje. Além disso, o rito permaneceria inalterado durante séculos. 2.O Estado e a Igreja estão unidos pelo Evangelho. O Mosteiro é o lugar onde se desenvolvem todas as atividades do povo: espirituais, culturais e sociais. O cristianismo se integra em todas as atividades do povo e seus governantes.

E aqui nos deparamos com a segunda palavra que ouvimos do Senhor a Vassula: Integridade. Não nos encontramos com uma religião dos domingos e dias santos, mas com uma maneira cotidiana de viver.{O cristianismo não é apenas uma religião, mas uma maneira de viver. Assim foi instituído pelo Senhor.} Em 1237, com a invasão dos mongóis, Kiev foi saqueada e destruída junto com todos os principados russos, com exceção de Novgorod. Devido à destruição de Kiev, o centro vital da Rússia mudou-se para Novgorod, a Grande, principal centro cultural depois de Kiev. Jesus diz a Vassula (esclarecendo-se que o texto não se refere a este evento especificamente): “Esta nação que uma vez Me honrou e louvou abertamente, radiante como uma safira, uma Cidadela de delícias, foi reduzida a um árido país de seca pelos pecados e crimes do mundo. (03.09.1991)” .

A invasão dos mongóis causou à Rússia sua destruição econômica. No entanto, a Igreja pôde sobreviver graças à tolerância dos invasores, que respeitaram a espiritualidade do povo, chegando ao ponto de não cobrar impostos aos bispos e suas igrejas. Sustentada pela mão da Igreja, a Rússia manteve-se unida e manteve viva a sua fé durante os dois séculos e meio de ocupação. No início do século XIV, se somam a Novgorod dois centros políticos crescentes: Rostov, a Grande, e um pequeno principado, Moscou, cuja importância foi crescendo ano a ano graças à capacidade de seus príncipes, que eram a favor de uma unidade autocrática da Rússia (até então eram diversos principados). {A Rússia era uma quantidade enorme de principados. Cada príncipe tinha sua independência, então era muito facilmente atacada e conquistada. O exército tártaro era absolutamente imparável porque os tártaros tinham dois cavalos e eram capazes de dormir e de comer cavalgando. Suas tropas chegavam muito antes do esperado.}.A Igreja, juntamente com os seus monges, continuou a desempenhar um papel importante no renascimento de uma Rússia unida. {Porque a Igreja e os monges são uma coisa só, no povo russo, com os monastérios.

Assim também digamos que no século IV havia dois cristianismos – é quando terminam os três primeiros séculos de perseguição cristã que teve 7 milhões e setecentos mil mártires. Mas no momento em que Constantino – não sei se era cristão, mas – instituiu a religião cristã como a religião do Estado, ocorrem duas coisas [muito bem dito por São Gregório de Nissa]: “Não sei se vai realizar mais a cristianização dos pagãos ou a paganização dos cristãos." E se produzem dois cristianismos: o cristianismo oficial, ligado de alguma forma ao poder, e o monacato, que é um cristianismo absoluto. Por isso, vão ao deserto. Vão para longe da civilização. Mas o deserto está habitado por outros seres que são os seres diabólicos. Santo Antão, que é o Pai do monasticismo de todo o mundo, vai para o deserto para combater o Maligno. O inicio da decadência do cristianismo e  a força dos mosteiros Então ali se produzem dois cristianismos.

Creio pessoalmente que aí começa a decadência do cristianismo, nesse momento. Porque começa a se orientar pelos valores do Estado. Há um exemplo, no primeiro Concílio Ecumênico, em 318, até este momento em todos os concílios realizados havia unanimidade porque a unanimidade indicava que o Espírito Santo estava presente nas decisões. Se chegava a uma conclusão e havia uma unanimidade. Neste Concílio, entre 317 bispos um não estava de acordo. Então o que acontece? Constantino percebe isso, que chegaram a uma unanimidade. Mas aí entra a política no cristianismo. Esta é uma opinião pessoal que eu tenho, mas o acontecimento que estou contando é verdade. Não que eu pense que se tenha que sair do mundo, mas é necessário que um pequeno resto [dos cristãos] cumpra o Evangelho absolutamente, para que o Senhor perdoe a todos nós.

De toda forma, no mundo talvez se possa fazer um certo monasticismo citadino, não é necessário se fazer um monasticismo estrito porque o monasticismo russo não era assim. No princípio, no monasticismo até São Sérgio de Moscou, uma pessoa poderia fazer uma pequenina casa bem feita, com um altarzinho e ali ficava. Depois vinha outro ao lado e assim por diante. Não havia um edifício comum. Cada um tinha sua casinha e se reuniam, mas cada um vivia em sua casa e se juntavam para rezar. Era um pouco a maneira como se vivia no tempo de Jesus. Foi como instituiu Jesus, não havia um edifício chamado igreja. Ecclesia quer dizer ‘convocatória’, não é um edifício. Construir minha igreja é construir minha convocatória ao povo.

E assim começou até São Sergio, e nasceram os mosteiros. Só se rezava em comum, nada mais.} Os notáveis santos russos eram líderes espirituais e colaboradores dos príncipes moscovitas. Santo Aleixo, Bispo de Moscou (1354-1378), educou o príncipe Dimítri Donskóy (Demétrio de Moscou). Ele ajudou o príncipe moscovita a acabar com a agitação feudal e a construir lentamente a unidade do Estado russo. {Dimítri tornou-se um santo, São Demétrio, muito estimado pelo povo russo. } É no momento em que as forças da nação começam a se concentrar em torno de Moscou que surge o grande santo da Rússia, São Sérgio de Radonej. São Sérgio nasce em 1313, filho de camponeses ricos de Rostov. Nunca foi muito capaz nem afeiçoado aos estudos; tinha dificuldade em aprender a ler e escrever até que recebeu a bênção de um monge que lhe disse: "a partir de hoje, você vai ser excelente nos estudos e, pela graça divina, poderá entender as Escrituras". Mas ele nunca se destacou nos estudos, apesar da bênção. {Isto nos indica que o conhecimento de Deus não é o mesmo que o conhecimento do mundo, que o conhecimento intelectual.}

Quando seus pais, já de idade, entraram para um mosteiro para terminar seus dias lá, São Sérgio partiu, junto com seu irmão Estêvão, para uma floresta virgem {na Rússia, o lugar de isolamento não são desertos de areia, mas bosques} e lá construíram uma cabana junto a uma fonte e uma pequena capela dedicada à Santíssima Trindade. Eles viviam em isolamento total. Seu irmão o deixou, depois de um tempo, à procura de uma vida menos exigente e Sergio ficou sozinho, continuando sua vida de recluso, na companhia de animais da floresta, entre eles um urso com quem compartilhava sua escassa comida.

Aos poucos, suas virtudes foram sendo conhecidas e alguns homens vieram para aprender com ele a dura experiência monástica. {Estamos falando de 25 graus abaixo de zero no inverno, e que Deus proverá, de acordo com a Sua palavra do Evangelho: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado (Mt 6,33) – naquela época não se aceitava esmola.} No entanto, não levavam uma vida comunitária, já que cada um, em sua cabana, organizava seu tempo e administrava seus bens como entendia, consultando Sérgio como um pai espiritual.

Alguns anos mais tarde, contra a sua vontade, foi nomeado abade e diz a seus irmãos: "Orem por mim, meus irmãos, porque eu não tenho mansidão nem sabedoria, mas recebi do Rei do Céu um talento, e devo prestar contas."{Este é um ato preciso de humildade: ocupar exatamente o seu lugar.}A partir da convivência com outros irmãos, se começam a conhecer seus primeiros milagres: doações milagrosas de alimentos que permitem o cumprimento evangélico de não se preocupar com nada; o surgimento de uma vertente de água abundante que até hoje abastece o mosteiro; a cura de um possesso e até mesmo o despertar de uma criança morta. Junto com as graças recebidas sobrevém uma provação a São Sérgio e aos monges.

O Patriarca Filoteu, de Constantinopla, lhe enviou uma carta ordenando-lhe estabelecer a vida comunitária no mosteiro, eliminar as posses pessoais, organizar a economia e distribuir os trabalhos domésticos. Construir uma padaria, um refeitório, um depósito de alimentos; impedir que se comprassem ou vendessem bens no próprio nome, mas que se considerasse tudo como um bem comum. São Sérgio aceitou [tudo isso] por obediência ao Patriarca e a seu próprio bispo, a quem recorreu para confirmar a ordem. Apesar desta dificuldade inicial, surgiram outros mosteiros, dirigidos por discípulos de Sérgio: o do Salvador, em Moscou (que seria, mais tarde, decorado pelos afrescos de Andrei Rublev); o da Natividade da Virgem, também perto de Moscou, chamado Simonov; o da Virgem da Montanha, etc. São Sérgio apoiou fortemente a política de unificação dos principados de Moscou, o que permitiu enfrentar o jugo mongol.

O grande príncipe Dimítri chegou à Abadia da Trindade para lhe pedir aconselhamento e orações porque estava se preparando para a grande batalha contra o exército tártaro, pronto para atacar Moscou. O santo lhe disse:" Seu dever exige que defenda seu povo. Esteja preparado para oferecer a sua alma e derramar o seu sangue. Mas, primeiro, apresente-se a Khan como se fosse seu vassalo e tente detê-lo por sua submissão. A Escritura nos ensina que, se nossos inimigos reivindicam nossa glória ou desejam nosso ouro e nossa prata, podemos dar-lhes. Ofereçamos nossa vida e nosso sangue apenas pelo nome de Cristo. Ouça, Príncipe: dê-lhes sua glória e suas riquezas, e Deus não permitirá sua derrota; Ele irá elevá-lo ao ver sua humildade e humilhará o indomável orgulho deles." Mas o príncipe respondeu que as tentativas de evitar a batalha haviam sido esgotadas. Então Sérgio lhe disse: "Vá, então; Deus lhe ajudará. Que Sua graça esteja com vocês"

. O Príncipe Dimítri vence pela primeira vez o até então invencível e devastador exército mongol, e este é o começo, não sem grandes dificuldades, da libertação da ocupação mongol. Trinta anos depois da morte de São Sérgio, seu corpo incorrupto foi depositado na igreja. Todos os grandes movimentos espirituais da Rússia estão ligados a ele, de uma forma ou de outra, porque ele une harmoniosamente as duas tendências do monasticismo autêntico: a vida do eremita e a vida cenobítica (comunitária), mantendo a primazia do misticismo contemplativo unido à importância do trabalho e da atividade caritativa. No total, desde o século ХIV até meados do século ХV foram fundados na Rus’ cento e oitenta novos claustros monásticos. Livrando-se dos invasores, o Estado Russo ia acumulando poder, e a Igreja acompanhava esse crescimento. Em 1448, pouco antes da queda do Império Bizantino, a Igreja Russa tornou-se independente do Patriarcado de Constantinopla, do qual dependia até esse momento.

O metropolita Jonas, nomeado pelo Concílio dos Bispos russos em 1448, recebeu o título de Metropolita de Moscou e Toda a Rus’. Em 1589 o Metropolita de Moscou, Job, tornou-se o primeiro Patriarca Russo, a quem os patriarcados orientais outorgaram o quinto lugar de honra. O início do século ХVIII foi marcado por reformas radicais de Pedro I, cuja intenção era europeizar a Rússia, inclusive a Igreja. Depois da morte do Patriarca Adrian em 1700, Pedro I suspendeu a eleição do novo patriarca e em 1721 instituiu um colégio regente eclesiástico superior representado pelo Santo Sínodo Regente (escolhido pelo Czar), que permaneceria como um órgão eclesiástico superior durante quase duzentos anos. Grande admirador do Ocidente, Pedro, o Grande, queria limitar a inserção da Igreja na vida cultural, na assistência social, eliminando muito do que a Igreja e os mosteiros haviam realizado até o momento: a evangelização da vida social e cultural e política do povo. Por isso, tanto Pedro, o Grande, como Catarina I da Rússia, fecharam depois numerosos mosteiros. O renascimento da vida monástica veio das mãos de Paissy Velitchkovsky (1722-1794) que, vendo-se impossibilitado de fundar um centro espiritual na Rússia, foi para o Monte Atos [Grécia][5], onde permaneceu por 17 anos.

Em seguida, retorna à Moldávia (Romênia) estabelecendo-se no grande mosteiro de Niamtsy, concentrando-se, entre outras atividades, na tradução para o eslavo da famosa compilação de textos de autores ascéticos ortodoxos composta por um monge do Monte Atos: São Nicodemos, o Hagiorita, (1749-1809) e o bispo Macário de Corinto (1731-1805).Esta obra monumental chamada Filocália[6] (amor à beleza espiritual) (Dobrotolubiye, em eslavo) contém os relatos dos Padres do Deserto que cultivavam o hesicasmo (prática ascética que significa: quietude, silêncio, paz interior, sobriedade) e a "oração do coração", difundida entre os monges cristãos orientais, a partir do século IV com os chamados Padres do Deserto. Os Padres hesicastas desenvolveram uma Tradição terapêutica que tratava das doenças (paixões) da alma e do espírito, indicando o processo de cura. Entre todos os métodos que foram usados pelos primeiros monges, os dois principais foram: total confiança em um superior, o staretz, a quem se abre o coração até o ponto de revelar os pensamentos mais íntimos; a obediência perfeita.

O único combate eficaz contra o poder do ego. O mérito de Paissy não se limitou à publicação de livros, mas, através da experiência espiritual pessoal na vida comum, ele conseguiu inserir o ideal hesicasta que cultivavam os eremitas na vida de uma comunidade monástica. Esta síntese admirável foi possível graças à restauração da antiga tradição da paternidade espiritual (staretz). Era a figura viva do staretz que harmonizava a práxis monástica exterior, que consistia na disciplina, regra, ofício litúrgico e ascese corporal; e a práxis interior, constituída de combate espiritual, oração do coração e o discernimento dos espíritos. Esta experiência fez dos grandes mosteiros na Moldávia, guiados por Paissy, uma verdadeira escola de staretz [que depois entrou na Rússia].É o retorno às fontes do monasticismo de São Sérgio, que se acredita quase com certeza que praticava o hesicasmo. Na Rússia, a Filocália eslava converte-se no veículo de um verdadeiro e próprio renascimento espiritual. No final do século XIX, é publicado um livreto: "Relatos de um peregrino russo", escrito por um autor anônimo que narra de forma autobiográfica a peregrinação física e espiritual de um peregrino anônimo para alcançar o conhecimento da oração interior contínua. Toma o caminho da oração do coração como um método para acostumar o espírito ao recolhimento e fazer com que se acenda no espírito, pelo Espírito Santo, a chama da verdadeira oração e do verdadeiro amor como caminho para Deus. O século ХIХ deu grandes exemplos de santidade russa: os bispos metropolitas de Moscou Filareto e Inocêncio, São Serafim de Sarov, São Inácio Brianchaninov, São Teófano, o Recluso.                


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